© "Via sacra"  Bill Ross
 

Novembro - 2007

 

A Tua Palavra Ilumina os Meus Passos

 

Êxodo

O Livro do Êxodo

   
Autora: Nicoletta Crosti
 

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Para uma adequada integração no trabalho do Grupo que já chegou ao capítulo 20 do Livro do Êxodo, quando no Sinai são dados os dez mandamentos, vamos de seguida inserir algumas páginas sobre momentos significativos que precederam o acontecimento do Sinai.
 
O livro do Êxodo faz parte do Pentateuco (a palavra grega significa “cinco compêndios”: Génesis, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronómio), nomeado pelos hebreus como Torah. Geralmente a palavra Torah é traduzida por Lei, porque foi essa a palavra utilizada na antiga versão grega dos LXX, mas na realidade significa Ensinamento, um ensinamento para uma vida de santidade. Foi escrita no século V a.C. pelos hebreus que voltaram à Palestina após o exílio Babilónico. Apresentaram-no então, como a sua constituição, ao rei da Pérsia, ao qual estavam submetidos, para obter a legitimação da sua existência enquanto povo, com a sua fé que rodava à volta do templo e com as duas instituições principais, a dos Sacerdotes e a dos Anciãos.
O Êxodo diz a Israel como nasceu, quem é, quem deve servir e como deve servir
O Êxodo é considerado o livro mais importante da Torah porque fala do nascimento do povo hebraico, constituído no deserto, de um modo muito especial, sem rei, sem terra, sem templo. O Deus do Êxodo (Adonai) é o Deus Salvador, o que fez sair os israelitas da escravatura do Egipto. Esta escravatura é vista como metáfora de toda a escravatura do homem e da mulher da qual o Senhor liberta. Adonai, depois da libertação, propõe a Israel uma Aliança, para tê-lo como partner (2) do seu desígnio de salvação.
Adonai, com as dez palavras, ensina Israel como permanecer um povo livre.
 
Adonai  tem necessidade de Moisés para libertar os filhos de Israel
Êxodo, capítulo 3
 
v. 4 Moisés, Moisés! Ele disse: eis-me aqui! Adonai chama Moisés pelo nome, já o conhece. Moisés responde responsabilizando-se e colocando-se à disposição, como procede cada crente quando Deus chama.
A vocação de Moisés tem um carácter fundador e paradigmático de todas as vocações. Seguindo estas um esquema típico: 1. Chamamento para uma missão; 2. Objecção do candidato; 3. Promessa de auxílio e um sinal. Veja-se Gedeão ( Jz 6,11-24. 36-40) e Maria (Lc 1,26-38)
v. 5 Tira as sandálias ... é um lugar santo. É Deus que decide onde habitar, e com a sua presença tornar santo um lugar. Frente ao Senhor, só se pode estar com os pés nus, porque se é servidor não senhor (veja-se Jos 5,13-15). Na antiguidade só os ricos traziam sandálias, o calçado do homem livre (Lc 15,22).
 
v. 7 Eu vi a miséria do meu povo… ouvi o seu grito… conheço São as palavras da história da salvação, de um Deus que vê, que escuta, e que conhece, com todo o significado abrangente do verbo conhecer, usado em hebraico também para a relação sexual. A terminologia é a inerente à oratória de culto que é também uma terminologia jurídica. Deus, justo juiz, deve conhecer o fundamento da lamentação e só depois decidir intervir e salvar. O salmo 115, 4-8 ridiculariza os ídolos dos pagãos que, contrariamente a Adonai, não vêem e não ouvem.
Cada obra da salvação é também, sempre, um juízo
Adonai libertará os escravos hebreus mas ao mesmo tempo anulará o orgulho do faraó.
v. 11 Quem sou eu… e começam as objecções típicas de cada relato de vocação (veja-se Jer1, 5-10; 1 Sm 9,21; Jz 6,15). Moisés, ele próprio, expressará cinco, esta é a primeira. Estas objecções são necessárias para fazer com que o leitor perceba que Moisés não inventou o chamamento, pelo contrário, fez tudo para não aceitar aquela missão. Moisés viu como o trataram os seus irmãos, pensa não possuir o carisma necessário para uma missão.
 
v. 12 Eu estarei contigo. E o sinal é este… (3). É a típica expressão de conforto e o sinal. O sinal, ver-se-á no futuro, será a missão que chegará a bom termo, a única garantia dada a Moisés, que deve aceitar o chamamento na fé. A experiência do povo será passar da escravatura do Egipto ao serviço de culto de Adonai (Ex 4,23; 7,16 e 26; 8,16; 9,1 e 13;10,3.8.24; Lv 25,42), uma função tomada por livre escolha. (Ex19,8).
 
v. 14 “Eu Sou Aquele Que É”(4) assim se revela Adonai, e é a única vez que no Antigo Testamento Deus diz que é. A partir daquela revelação o nome do Deus de Israel será exclusivamente o tetragrama, IHWH, que não se pronunciará e por isso na leitura será substituído por Adonai (Senhor).
 
Deus não se revela através de um substantivo mas de um verbo. O verbo haià ( = existir, tornar-se) é um verbo dinâmico, que não se refere a permanência, e é utilizado no tempo futuro. A tradução literal seria Eu serei aquele que serei. A versão dos Setenta (século III a.C.) traduziu esta expressão como eu sou aquele que sou… onde radica a tradução latina da Vulgata e as nossas traduções. Mas esta tradução não dá o verdadeiro significado da expressão hebraica, que indica uma presença que age (veja-se Is 52,4-6) e da qual se experiencia a acção. O nome de Deus é para decifrar, experimentando-se a sua acção de momento a momento. Adonai revela-se, mas ao mesmo tempo encobre-se. Será Jesus que fará conhecer o nome do Pai (Jo 17,26). O Deus de Moisés usa o pronome “eu”, ficando por isso um “tu” para Moisés que o interpela, e será o tu de cada hebreu e de cada cristão.
 
Adonai atinge o Egipto com sinais, prodígios e juízos
Introdução aos capítulos 7, 8, 9, 10, 11
 
Com o capítulo 7 inicia-se a epopeia das “pragas”. Um encontro entre o Deus da liberdade, o Deus único com o faraó despótico e orgulhoso que se julga Deus. O relato das pragas não constitui uma sequência histórica, mas uma composição literária, uma construção teológica elaborada, destinada a ser declamada ou cantada na liturgia. O estilo é épico, hiperbólico. Quer dizer-se que:
Quem resiste à vontade de Deus, que é a vontade do bem, e se mostra arrogante como o faraó, encontra o sofrimento e a morte, isto é o julgamento de Deus.
Toda a narração é vista como um riv (contestação), tipicamente profético, isto é, como um processo que visa induzir o faraó a reconhecer a sua culpa (Ex 9,27; 10,16). Paradoxalmente, as pragas são um acto de amor de Deus, que quer afastar o faraó da morte e lhe concede tempo para se converter. (Ez.18, 30-32; 5, 3-9; Sb.12, 2 e 8-11; 2 Pe. 3, 8-9; Ap. 2, 20-23).
Pensam que me alegro ao ver um homem mau morrer? Pelo contrário, preferia vê-lo arrepender-se e viver. Palavra do senhor (Ez 18,23)
O autor esforça-se por manter um equilíbrio delicado entre o maravilhoso e o verosímil. Não quer que os acontecimentos apareçam como um sonante milagre, perante o qual se é obrigado a consentir.
Deus quer deixar ao crente espaço de liberdade e não obrigá-lo a aceder.
Os fenómenos naturais relatados neste capítulo são desconhecidos na Palestina (com excepção do granizo), mas são comuns no Egipto, entrando no ciclo natural das estações do ano. A vermelhidão do Nilo em Julho-Agosto é devida aos detritos levados pelas cheias. A proliferação das rãs e dos mosquitos, em Dezembro-Janeiro, acontece porque o Nilo se retira e deixa zonas de pântano propícias à proliferação de insectos e de anfíbios. A tempestade de areia vem periodicamente do deserto, chegando a obscurecer o céu. A morte dos peixes ocorre de cada vez que um microrganismo (Euglena sanguinea) cobre o Nilo, absorvendo o oxigénio e provocando a morte dos peixes por asfixia; a chuva de gafanhotos é um fenómeno endémico do oriente, trazido pelo vento.
O autor chama às pragas “sinais” (Ex 7,33; 8,19; 10,2; Sl.135/134, 8-9), que são enviados de um Outro; “prodígios” o que, etimologicamente, significa dizer primeiro (Ex.7,3. 9; 10,1; 11, 9-10) isto é, aviso, presságio; “justo juízo/ julgamento” (Êx 6,6; 7,4), porque Deus não suporta o pecado e a desobediência. Deixa que o homem pague as consequências do seu agir incorrecto que o leva a viver nas trevas e por isso a tropeçar (Jr.13,16). Deus sofre por isto (Jr 13,17), mas respeita a liberdade do homem.
Toda a epopeia das pragas quer apresentar uma complexa mensagem teológica, que tem como ponto de chegada as palavras de Adonai.
Fora de mim não há outro deus. Eu sou um Deus Justo e Salvador, e não existe nenhum outro.
( Is 45, 21). (5)
Quem se opõe a Deus encontra a morte e quem segue com Deus encontra a vida e a liberdade (Dt 30, 15-18)
Nas pragas, é a própria criação que se insurge contra o homem e se torna instrumento de morte, enquanto deveria estar ao serviço do homem. (Gn. 1,26.28). Toda a história da humanidade demonstra que o drama das pragas se repete. Isto tem origem no pecado de Adão, que recusou reconhecer-se como criatura obediente diante de Deus, o único soberano e criador.
 
É a Páscoa do Senhor!
Êxodo, capítulo 12
 
Segundo o relato bíblico, na noite da saída do Egipto, Moisés recebe de Deus a ordem para celebrar a Páscoa. Historicamente não foi assim. O rito começou a ser celebrado muito mais tarde, em recordação daquele facto que, aos olhos da fé, foi percepcionado como o acontecimento fundamental da história de Israel. Na proclamação litúrgica o facto histórico do passado (acontecido entre os anos 1.200 e 1.220 a.C.) torna-se acontecimento do presente.
Celebrar a Páscoa significa celebrar a passagem da sujeição aos ídolos à escolha livre de servir o Senhor.
O livro Jz.2,11-22 mostra como o “servir” os ídolos é uma tentação constante e Js 24,14-24 esclarece como é comprometedor servir livremente o Senhor.
v. 3 ... no dia dez deste mês...  É uma data precisa que situa historicamente o evento da libertação. Repetir-se-á, por várias vezes, naquele próprio dia… (Ex.12,17.41.51; 13,8) para sublinhar a historicidade da Páscoa. Com a ordem de celebrar a Páscoa numa data concreta, Deus mostra que prefere a santificação do tempo à santificação do espaço (o Templo). O ritual é familiar e refere-se a um velho rito pré-israelitico dos pastores semi-nómadas da Palestina. Estes, por altura da transumância, costumavam matar um carneiro, oferecê-lo à divindade, comer a carne tenra, e espargir o sangue sobre as estacas das suas tendas para obter protecção contra influências maléficas durante aquele período. Não se quebravam as pernas do carneiro porque se imaginava que a sua vida pudesse voltar ao rebanho (veja-se o ritual do carneiro em Ap.5,6 e Jo.19,36). O ritual era celebrado de noite, sem a presença de sacerdotes, sem altar ou santuário. A comida exprimia a comunhão com o clã de pertença e com a divindade. O carneiro deveria ser consumido por inteiro, sem deixar sobras, para evitar quaisquer profanações. Este ritual era cíclico, ligado às estações, mas Israel fez dele um rito histórico, referido a um tempo preciso.
Cristo, nosso Cordeiro pascal, já foi imolado (1Cor 5,7)
v.11-13 É a Páscoa do Senhor! O termo Páscoa de origem incerta, pode significar “saltar, passar para mais além”, (veja-se v. 12 e 13). Nessa noite passarei por todo o Egipto … e exercerei a minha justiça contra todos os deuses do Egipto ... quando eu vir o sangue, passarei adiante e nenhum de vós morrerá… (6) É a passagem de Adonai pelo meio do Egipto, que traz a vida para uns (os israelitas fechados nas casas assinaladas pelo sangue do carneiro ) e a morte dos primogénitos dos outros (os egípcios).
Esse dia deverá ser memoriado…celebrai-o por ordem perene. Ex12,14.
Para os hebreus o termo “memorial”, termo litúrgico, não é só uma recordação, é muito mais. É um tornar presente, na fé, o acontecimento do passado no hoje da liturgia, e por isso no presente de cada história pessoal. É neste sentido que a palavra “memorial” é aplicada à eucaristia cristã. De facto, Jesus Ressuscitado está realmente presente, em cada celebração, como libertador, e salvador.
vv. 15-20 Observai o pão ázimo… como ritual perene. A festa do pão ázimo é parte integrante e constitutiva da festa da Páscoa. Foi unida á matança do carneiro no tempo de Ezequiel no século 8º a.C. ( 2Cr,30), ou no tempo de Josias no século 7º (2 R 23,21-23). Os ázimos em hebraico ‘mazzot’ = sem sabor), são a bolacha sem fermento de um rito pre-israelítico. O rito dos agricultores, que durante uma semana, no início da primavera, cozinhavam um pão sem levedura com a nova farinha de cevada, dado que o velho fermento era eliminado, e era necessária uma semana inteira para obter a levedura da pasta da cevada nova. A eliminação do fermento velho indica, simbolicamente, a purificação de cada elemento da corrupção e da impureza.
A não observância dos ázimos é punida com a morte (Ex 12,15).
O tema da levedura velha é retomado por Paulo, em 1 Cor 5, 7-8.
O ritual da Páscoa recorda aos hebreus e aos cristãos que:
  • a saída do Egipto foi uma misteriosa iniciativa de Deus, um dom seu. Deus velou toda a noite (Ex 12, 42) para trazer a sua justiça onde estava a injustiça e dar liberdade aos escravos.
  • Deus exige o estabelecimento de um “memorial”, no sentido de recordação e de celebração, ( Ex 12,14 e 17 e Lc 22,19) que ritualize o acontecimento de libertação dos vários ídolos e dos vários faraós da história.
  • a Páscoa é um banquete festivo, que exprime a alegria da libertação do presente, antecipando e prefigurando a libertação escatológica total e definitiva.
  • o sangue do cordeiro da Páscoa, que pertence a Deus é protecção contra as forças do mal (Ex 12,13) e para os cristãos sangue da Nova Aliança ( Mt 26,27; Mc 14,24; Lc 22,20).
v. 23 O Senhor passará para atingir o Egipto. É mesmo o Senhor que o atinge. A arrogância e a opressão do faraó reclama o juízo de Deus, que não pode faltar, dado que a história está nas mãos de um Deus, que é justo juiz.
O pensamento hebraico não conhece o mal enquanto realidade abstracta, (veja-se Jr 7,16-20) mas sim o mal concreto incarnado no homem pecador (o faraó). Portanto, a eliminação do mal (a idolatria) traz a eliminação do pecador (o faraó). O Senhor… não permitirá que o exterminador entre em vossas casa para vos atingir.
Deus distingue quem é idólatra e pecador e quem o não é. (veja-se Ez 9,3-7 e 6, 11-14; Ap 6,12-7,2-4; Sl 75/74; Jo 3,18-21).
Adonai é um Deus exigente que não quer compromissos com a idolatria e a imoralidade.
Paulo dirá: Não vos iludais; Deus não se deixa levar em brincadeiras (Gl 6, 7)
v. 42 Uma noite de vigília do Senhor, para os fazer sair da terra do Egipto.
A Páscoa aparece descrita como uma noite de vigília da parte do Senhor, que quer trazer a liberdade ao seu povo. É de facto Ele, e só Ele, que pode fazer acontecer o milagre da libertação do poderosíssimo faraó. Mas a noite de Páscoa é por isso também uma noite de vigília de todos os filhos de Israel, para recelebrar o acontecimento em honra do Senhor, de geração em geração.
Noite dramática para os israelitas, que deixaram à pressa um Egipto imerso na experiência da morte.
Assim, cada libertação é um processo difícil, que conhece a angústia e o medo.
O autor sagrado põe em paralelo a noite de Páscoa e a noite da prova, das muitíssimas provas pessoais e colectivas do povo de Israel. Só se forem vividas na entrega ao Senhor e confiando nele, como fizeram os israelitas partindo para o deserto, as provas tornam-se fonte de libertação e de graça.
 
Quero cantar ao Senhor porque triunfou maravilhosamente
Êxodo 15,1-21
 
O capítulo 15 do Êxodo inicia-se com um hino litúrgico, que ainda hoje é cantado nas Sinagogas na manhã da Páscoa. É um hino de louvor e de gratidão, recordado até no Apocalipse (15,3), que envolve corpo e espírito, através do canto, da música e da dança (Ex 15,20). Exprimir alegria e admiração ao Senhor pelos seus feitos grandiosos, é a resposta de Israel infinitamente repetida, que aparece com variações em tantos salmos (105/104; 111/110; 98/97…). E o contínuo dizer que:
Só Ele é capaz de anular qualquer arrogância e qualquer opressão.
A salvação da tirania do faraó não constituirá uma salvação definitiva, mas sim a primeira de uma longa série de intervenções de salvação. Com efeito, Israel, sofrerá muitas agressões na terra de Canaã, durante o tempo dos juízes, durante a monarquia, com o exílio na Babilónia, com a opressão romana e a destruição de Jerusalém, e assim através dos séculos até chegar à Shoà do século XX, quando Israel correu o risco de aniquilação total. Mas de todas estas agressões foi libertado pelo Senhor.
Se o Senhor não estivesse do nosso lado, quando os nossos inimigos nos atacaram, eles tinham-nos tragado vivos, na sua fúria contra nós; Sl 124/123, 2-3
Através da experiência da libertação, Israel descobre-se como ser amado, predilecto e chamado por Adonai. A sua existência é um dom do qual ficará agradecido para sempre.
v. 18 O Senhor reina para sempre, eternamente. Todo o Êxodo diz que o povo de Israel tem como rei Adonai a quem deve servir e não o Faraó. Pode considerar-se este cântico como o primeiro dos salmos do reino: Sl 47/46; 93/92; 95/94; 96/95; 97/96; 99/98. Adonai é um rei que não põe mais peso sobre os ombros, mas que pelo contrário, retira o peso que se tem. Nesta mesma atitude se colocará Jesus. (Mt 11,28)
Adonai liberta sem dominar e domina sem humilhar
v. 21 Então Míriam, a profetiza, irmã de Aarão… por detrás da qual apareciam as mulheres... pô-los a cantar o refrão… Míriam foi seguramente uma guia carismática, a quem o povo não poderia, de modo algum, desconsiderar (veja-se Num12,15), mas a mentalidade machista daquele tempo impediu a recordação do papel que ela historicamente desempenhou. Míriam não usará a insígna sacerdotal, mas pertencerá à casta sacerdotal (Nm 26,59), para justamente legitimar o seu papel no culto. Foi capaz de iniciar uma liturgia que, pela força do seu simples refrão, se tornou a liturgia perene da vitória sobre a morte, da Páscoa hebraica.
A figura de Míriam aparece no livro dos Números, capítulo 12 e é nomeada, também, como já citado, em 26,59 do mesmo livro, bem como em 1 Cr 5,29, como irmã de Moisés, e em Mi 6,4. O capítulo12 do livro dos Números mostra a tensão existente entre Moisés e Míriam, que disputam o primado no culto e na profecia. A figura de Moisés terá o primado sobre Míriam.
 
As Dez Palavras que salvam
Êxodo 20,1
 
Com o capítulo 20 inicia-se a parte legislativa do Êxodo. Só agora, no sopé do monte Sinai, os israelitas perceberam o que queria dizer “servir o Senhor”. É a primeira e única vez que Adonai, sem intermediários, fala directamente ao povo e a cada membro do povo, e lhes dá as “dez palavras”, (Ex 34,28; Dt 4,13;10,4) recolhidas em 17 versículos (Ex 20,1-17), chamadas mandamentos na tradição cristã. Fazem parte da Torah, são garantia de liberdade, para preservar o povo da anarquia, da tirania, do arbítrio humano, isto é, dos comportamentos destrutivos.
Até o rei estará sujeito a estas palavras que recebeu de Deus. (Dt 17,18-20).
Historicamente, em Israel a lei formou-se gradualmente, mas com um artifício literário, para lhe conferir um valor absoluto, é apresentada em conjunto e ao mesmo tempo, como dom de Adonai. Além do mais, é dada no deserto, a terra de ninguém, para realçar que não pertence a um povo específico, mas que é património de toda a humanidade; são as regras segundo as quais se constroem as relações sociais e entre os povos.
A lei de Deus não é inatingível nem sequer longínqua, mas é adequada ao coração de cada pessoa, diz o livro Deuterónimo (30,11-14).
 
A Torah é mais preciosa do que o ouro e do que o mel (Sl 19/18, 8-11), é melhor que os rituais do Templo (Is 1,10-20).
O Antigo Testamento contém pelo menos três códigos, elaborados em épocas diferentes, que actualizam as dez palavras. Aqui, no Êxodo encontra-se o “Código da Aliança” (Ex 20,22-26; 21;22;23,1-19;34,11-26.), nascido numa sociedade de pequenas cidades e aldeias, num mundo agrícola e pastoral, cujos conflitos eram regulados ao nível local. A presença de mais códigos ensina a não idolatrar um único código, porque sempre influenciado por uma componente sociológico-cultural inerente a um determinado tempo e a um determinado lugar.
Os códigos bíblicos têm ecos dos códigos legislativos pagãos (Hammurabi do séc. XIX a.C.), mas superam-nos do ponto de vista ético-religioso.
Os hebreus sempre reivindicaram a origem divina da lei, não dependente do poder do rei. A ideia de uma lei divina transcendente e exterior ao arbítrio humano está na base do “estado de direito” de Gregório VII (1073-1085 a.C.), depois na Magna Carta Libertatum de 1215 imposta ao rei de Inglaterra e na Declaração de Direitos de 1689 recebida de Guilherme III, rei de Inglaterra.
 
v.1 Naquele tempo pronunciou Deus todas estas palavras. Em hebraico usa-se o termo dabar como significado quer de ‘palavra’ quer de “facto, acontecimento”. Com efeito, a palavra é vista como uma realidade eficaz (...com a palavra do Senhor foram feitos os Céus …porque Ele falou e tudo foi criado; Ele ordenou e tudo ficou firme. Sl 33,32 6-11), e como uma realidade cheia de sentido. Foi para te mostrar que não é só de pão que o homem vive, mas que pode viver de tudo o que sai da boca do Senhor. (Dt 8,3). Veja-se Is 55,10-11; Ez 12, 24-28.
Para Israel a Palavra de Deus é a via mestra para realizar a comunhão com Ele, porque é palavra eficaz. (Ex 24,8).
Acreditar que a palavra de Deus é eficaz e tem capacidade criadora, é específico da fé de Israel e de Cristo.
     
   

Tradução: Ana Luísa Teixeira

     
   

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