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O que nos falta são "razões de viver"

Manuela Silva
Maio 2012
É bom acreditar que merece a pena ”levantar o Céu” e lembrarmo-nos
de que não estamos sozinhos.(…)
É esse o caminho que a sabedoria ensina e percorre para encontrar
a saída do labirinto em que a vida nos coloca.
- José Mattoso

À medida que se adensam as dificuldades com que nos vamos confrontando na vida de todos os dias (no emprego ou na falta dele, na família e suas desestruturações, nas ineficientes relações com o Estado, nos cuidados de saúde, no funcionamento das nossas escolas e outros serviços públicos) e sobram os temores relativamente ao futuro e às incertezas que o rodeiam, damo-nos conta de que vai larvando no nosso tecido social um sentimento colectivo propício à anomia e à resignação, sabendo, contudo, que aquele, a todo o momento, se pode converter em revolta e implosão social.

Fala-se em depressão colectiva, como uma situação silenciosa, que os fármacos e outros expedientes vão compensando, mas sem remover as causas. Por outro lado, esquece-se que a depressão comporta, sempre, uma elevada perigosidade potencial, contra si próprio ou contra a comunidade, de efeitos imprevisíveis.

Assim sendo, se, num primeiro momento, a depressão se traduz por sofrimento individual, frustração e efectivo desaproveitamento de recursos; num segundo momento, pode acarretar também pesados custos sociais decorrentes da desestruturação da própria sociedade.

Se ainda nos sobra uma réstia de lucidez e coragem para enfrentar esta labiríntica realidade, temos de reconhecer que, presentemente, estamos perante uma séria ameaça real, tanto mais que ela pode fazer secar o húmus de quaisquer sonhos de futuro e bloquear os indispensáveis esforços de adaptação e mudança que as novas realidades sempre exigem.

Em muitos ambientes cristãos, e com pretexto na celebração do cinquentenário do início do Concílio Vaticano II, tem-se procurado revisitar a doutrina conciliar e fazer o balanço da respectiva assimilação e implementação por parte dos fiéis e das suas comunidades e movimentos. É, certamente, uma oportunidade a não desaproveitar, pois nem as fontes da doutrina conciliar já mereceram o aprofundamento teológico necessário, nem os seus ensinamentos foram suficientemente adquiridos e passados à prática dos comportamentos individuais dos cristãos e das suas organizações e estruturas de governo.

No actual contexto em que vivemos, é particularmente oportuno reler a Constituição pastoral acerca da presença da Igreja no mundo e da missão específica dos leigos na evangelização do meio em que vivem.

Ficaram célebres as palavras iniciais daquele documento conciliar, a Gaudium et Spes. Aí se declara: As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo; e não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no seu coração. (nº1)

A Igreja assume-se, pois, como inserida no mundo e não acima ou de fora da realidade humana. O mistério cristão há de pensar-se como mistério do mundo e dele indissociável. É fermento na massa de que falam os evangelhos.

Olhando ao tempo presente, continuam a ser luminosas estas palavras e a apontarem o caminho para uma participação esclarecida e persistente dos cristãos no mundo de hoje, identificando os seus desafios e procurando enfrentá-los, ousando a novidade de uma vida construída sobre os alicerces da mensagem evangélica, as bem-aventuranças.

Para tanto, são precisos homens e mulheres que acreditem na vida, amem os outros como a si próprios e com amor universal, saibam respeitar os direitos universais e cuidar do Planeta, pratiquem a solidariedade e a inclusão social.

Mais do que novas utopias ou receituários de compêndios, há muito desactualizados, o fermento de que as nossas sociedades, hoje, mais precisam são “razões de viver”, levantar o Céu como propõe José Mattoso.

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