Uma Matriz

de Felicidade Pessoal

e Colectiva

 
Manuela Silva
Setembro 2010

 

Man Swinging from a Plant . Marie Bertrand - 2009

.

não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação
Não posso adiar o coração.
António Ramos Rosa

Não deixa de ser surpreendente que certas verdades essenciais nunca – ou raramente – passem para o discurso político ou ganhem a merecida visibilidade nos meios de comunicação social. É certo que, por vezes, atravessam esse discurso, como de raspão, mas de modo ambíguo e distorcido, segundo a conveniência do momento. O resultado é que o próprio discurso desvaloriza a ideia e a arruma na prateleira das utopias.

É o que sucede, por exemplo, com as múltiplas e frequentes abordagens da crise em que o mundo ocidental (e o sistema económico e financeiro que lhe subjaz) presentemente está mergulhado, as quais deixam completamente na sombra verdades tão nucleares como a busca subjectiva da felicidade, a qualidade da vida humana ou a convivialidade harmoniosa no Planeta em que habitamos.

Se estas dimensões transitassem, como deveria ser, para o enfoque principal do modo de fazer face à crise, novos caminhos de solução certamente se abririam. Caminhos, esses sim, portadores de felicidade, talvez com menos crescimento de produção material, mas com mais tempo livre, trabalho melhor repartido, consumo mais saudável e responsável, melhor coesão social e sustentabilidade ecológica. Caminhos que a todos beneficiariam, tanto aos povos do Norte como aos do Sul do Planeta. O bem comum de uma Paz justa e duradoura estaria, então, melhor defendido e a democracia seria mais verdadeira e consolidada.

Para sair do impasse a que nos conduziu a crise actual, é cada vez mais evidente que não basta recorrer apenas às receitas da economia financeira; há que aprofundar a consciência individual e desenvolver a dimensão espiritual da vida humana, recentrando-as em valores fundamentais que encontram eco no coração profundo do ser humano e, por isso, são indissociáveis da sua própria felicidade, essa aspiração suprema que sempre desejamos para nós próprios, para aqueles que amamos, para a Humanidade no seu todo.

No espaço da Fundação Betânia, temos vindo a aprofundar o nosso olhar sobre o mundo em que vivemos e temos procurado perscrutar a tradição da fé cristã para com ela confrontar o nosso desejo mais fundo daquilo que consideramos uma matriz de felicidade pessoal e colectiva.

É com estas palavras que, por ora, balbuciamos essa busca necessariamente inacabada e que desejamos aberta a outros contributos: (*)

• Felizes os que reconhecem o Amor na sua vida e acreditam n’ Ele, porque só o amor é gerador de vida.
• Felizes os que vivem o dom da confiança, porque possuem, em permanência, uma fonte de serenidade.
• Felizes os que estão atentos aos sinais portadores de futuro, porque são construtores do Reino de Verdade, de Justiça e de Paz.
• Felizes os que cuidam da Criação, porque tomam parte na Obra criadora de Deus.
• Felizes os que têm um coração compassivo, porque suavizam a vida.
• Felizes os que se deixam conduzir pelo Espírito, porque conhecerão a liberdade interior.
• Felizes os que são fiéis a si mesmos e guardam a sua inteireza, porque neles se revela a presença inefável de Deus.
• Felizes os que semeiam a alegria, porque a alegria é uma janela aberta para a esperança.
• Felizes os que se empenham na construção da justiça e da paz, porque estão ao serviço do projecto de Deus e do bem da Humanidade.
• Felizes os que são capazes de aceitar as várias situações de morte, porque as vêem como germens de vida.
• Felizes os que amam o Belo e nele se revêem, porque transportam consigo o olhar amoroso de Deus sobre a criação.

(*) - Céu Tostão, Luísa França; Manuela Silva

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