Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor

Procissão

Lc 19,28-40

Por detrás da narração do caminho de Jesus para Jerusalém, o evangelho deixa entrever o caminho de Jesus para o Pai e a orientação que ele exerce sobre a Igreja do alto dos céus.
Em primeiro lugar é apresentada a missão: “Jesus enviou dizendo: ‘Ide…’ Tendo partido aqueles que tinham sido enviados…” (vv. 29-30.32). Uma missão que exige dos cristãos, por um lado, a capacidade de prestar contas  dos gestos que fazem a quem quer que  peça contas (vv. 31-34), pelo outro, a capacidade de dar as motivações do seu agir sobre a base do Evangelho, da Palavra do Senhor. Os gestos realizados pela Igreja na sua missão no mundo não visam a satisfação ou a eliminação de uma sua necessidade, mas são obediência à Palavra do Senhor e manifestam a necessidade do Senhor, narram um Senhor que vem ao homem na pobreza e na humildade, porque só assim – na partilha da pobreza – pode acontecer o encontro. A riqueza que os enviados levam consigo está toda em redizer as palavras que o Senhor lhes entregou (vv. 31.34): palavras que, enquanto proclamam a pobreza e a indigência do enviante, situam na pobreza e na indigência o próprio enviado. A narração da entrada messiânica de Jesus na sua cidade torna-se a proclamação paradoxal de um Senhor necessitado e indigente. É indicado assim à Igreja que as necessidades e faltas que ela pode sofrer podem tornar-se motivo de confiança, em vez de angústia. Confiança no Senhor e força de comunhão com os pobres e necessitados aos quais se dirige o evangelho. Entree a Jerusalem2 Berna
No v. 37 afirma-se que toda “a multidão dos discípulos” louvava a Deus em voz alta. Lucas utiliza de novo a expressão em Act 6,2 para indicar os cristãos. À reprimenda que os fariseus pretendem dirigir aos discípulos através de Jesus, este responde dizendo: “Digo-vos que, se estes se calarem, gritarão as pedras” (v. 40). O texto entrevê a possibilidade de um silêncio culpado da Igreja: há uma confissão de fé, uma proclamação do louvor do Senhor, um reconhecimento dos seus prodígios, que não podem ser calados, sob pena de se repudiar o próprio estatuto dos cristãos. Preguiça, cobardia, vergonha, cumplicidade, medo, interesse, conveniência, conformismo: tantos são os motivos que podem levar o cristão a calar quando deveria falar, ou a dizer palavras já não habitadas pelo escândalo evangélico, palavras alienadas, palavras que não incomodam. E fique claro que as palavras evangélicas não incomodam apenas aqueles que as escutam, mas acima de tudo quem as profere. Porque o coloca na posição de pobreza, desamparo e necessidade que é própria do seu Senhor. A partilha da pobreza do Senhor é a condição da autoridade e da credibilidade da Igreja entre os homens.
A aclamação da multidão dos discípulos proclama bendito “Aquele Que Vem” (v. 38; cf. Sl 117,26). O nome do Senhor é “O Que Vem”. Ora, enquanto O Que Vem, o Senhor não é presença domesticável, não é possuído, não é realidade já conhecida e não portadora de novidade. O Que Vem recorda à Igreja que da confissão de fé faz parte a abertura ao estupor e à maravilha, a disponibilidade para se pôr em causa, e fazer-se interpelar pela novidade da história. Só enquanto O Que Vem o Senhor é também O Que Vive. E a confissão e o testemunho da Igreja têm a responsabilidade de anunciar O Que Vive, não – como fazem os discípulos de Emaús – um morto (cf. Lc 24,19-24).
Jesus precede os seus subindo para Jerusalém, a “cidade da paz”, a cidade que mata aqueles que lhe são enviados (cf. Lc 13,34) e sobre a qual Jesus chorará porque ela não soube reconhecer a via da paz (cf. 19,41-42). O caminho para a paz tem uma exigência: não se praticar violência. A realeza de Cristo não é propriamente deste mundo, porque, ao contrário das realezas mundanas que legalizam a violência e se servem dela, Jesus recusa em absoluto utilizá-la, recusa criar vítimas. Ele é o Rei radicalmente não violento, ao ponto de assumir sobre si a violência na cruz, epifania máxima da sua paradoxal realeza.

 

Celebração Eucarística

Entrée à Jérusalem 2 Berna

Is 50,4-7;

Sl 21,8-9.17-18a.19-20.23-24;

Fl 2,6-11;

Lc 22,14-23,56
A A paixão e morte de Jesus (evangelho) é “comentada” como humilhação pelo texto de Isaías e como rebaixamento, kenosi [esvaziamento], na passagem de Paulo. A submissão à violência dos seus adversários faz emergir a determinação e a resolução do Servo e a sua prática de não-violência (1.ª l eitura); o rebaixamento e o despojamento radicais de Cristo até à condição de escravo manifestam o seu senhorio, que a ressurreição estenderá a todo o Universo (2.ª leitura); o abraçar paixão e morte de cruz por parte de Jesus revela-se uma linguagem potente que chega até ao coração dos presentes e os conduz à conversão (evangelho).
A narração de Lucas da paixão e da morte de Jesus é a história de uma contradição em cujo centro se ergue a escandalosa condenação de um inocente (por três vezes Pilatos salienta que Jesus não cometeu nenhum mal: cf. Lc 23,13.15.22). Entrar na paixão e seguir Jesus no caminho da cruz significa, para o crente, aceitar ser revelado nas suas próprias contradições e nas suas próprias mentiras: só vendo e nomeando a sua própria mentira se poderá empreender um caminho de encontro da verdade. Esse caminho fica bem expresso pela multidão, que, depois de ter assistido à crucificação, “afastou-se dali batendo no peito” (Lc 23,48), reconhecendo, portanto, as suas próprias responsabilidade e culpabilidade. Da contemplação do crucifixo ao arrependimento: este o caminho que a narração de Lucas faz percorrer. A narração de Lucas da paixão expõe a verdade já afirmada, reltivamente a Jesus, quando era ainda uma criança: “Ele é sinal que será de contradição, para que sejam revelados os pensamentos de muitos corações” (Lc 2,34-35).
De facto, a paixão segundo Lucas é o momento em que se desencadeou a tentação para os discípulos, para a Igreja, em paralelo com as três tentações sofridas por Jesus no início do seu ministério (cf. Lc 4,1-13). Se a primeira tentação de Jesus incidia sobre o alimento, sobre a satisfação da sua necessidade mediante a subversão da ordem da criação (cf. Lc 4,3-4), agora, durante a ceia pascal, Jesus revela que o sentido de comunhão da partilha da refeição é subvertido por um discípulo com a traição (cf. Lc 22,1-23); se a segunda tentação de Jesus estava centrada no poder (cf. Lc 4,5-8), agora são os discípulos que, no meio da última ceia, discutem entre eles por uma questão de poder (cf. Lc 22,24-30); se a terceira tentação, que sugeria a Jesus que se lançasse do pináculo do templo para ser salvo pelos anjos, dando assim cumprimento à Escritura (cf. Lc 4,9-12), dizia respeito ao orgulho religioso, agora é Pedro que presume de si e da sua fé e orgulhosamente se declara pronto a ir com Jesus até à morte (cf. Lc 22,31-46). Nas três cenas, Jesus apresenta-se a si próprio e às suas palavras como antídoto contra a tentação. Encontramos sempre o exemplo que o próprio Cristo oferece (cf. 22,19-20; 22,27; 22,41.44-45); a ordem que dá aos discípulos (cf. 22,17.19; 22,26; 22,40.46); a promessa feita aos discípulos e que se abre para o horizonte escatológico (cf. 22,16.18; 22,29-30; 22,32). No centro da primeira cena (cf. 22,1-23), temos a instituição da eucaristia durante a última ceia; no centro da segunda (cf. 22,24-30), está a Eucaristia escatológica, o banquete no Reino; no centro da terceira (cf. 22,31-46) está a Eucaristia vivida por Jesus no seu corpo: ele dobra o corpo e verte o seu sangue (cf. 22,41.44).
Ou seja: no coração da Igreja, a Eucaristia é magistério de seguimento de Cristo e de luta anti-idolátrica: trata-se de celebrar a Eucaristia, de servir os irmãos, de rezar. São três das quatro notae ecclesiae de Act 2,42 (fractio panis, comunhão, oração) A quarta, o ensinamento dos apóstolos, está presente no mandato dado por Jesus a Pedro de confirmar os irmãos (cf. 22,32).
Em particular, Lucas sublinha que Jesus suporta a paixão e a morte graças à oração: no Getsémani (cf. 22,39-46), na cruz (cf. 23,34) e no momento da morte (cf. 23,46), Jesus reza. A rezar ele vive a terrível tensão daqueles momentos diante de Deus, na consciência da proximidade com o Pai (cf. 22,42; 23,34.46) e nesta filiação consciente ele cumpre o seu caminho terreno.

Selecção extraída de Reflexões sobre as Leituras - Ano B de Luciano Manicardi, monge de Bose

Tradução do original por Rita Veiga

ImagemEntrée à Jérusalem 2 - Bernadette Lopez, aka Berna