Festa

Pentecostes

lucas touro arcabas

Act 2,1-11;

Sl 103,1ab.24ac.29bc-30.31.34;

Rm 8,8-17;

Jo 14,15-16.23a-26

O Espírito Santo interioriza no crente a presença de Cristo (evangelho) e torna-se nele testemunho do seu ser filho de Deus, de modo que pode rezar-lhe invocando-o como “Abbà”, “Pai” (2.ª leitura). A presença do Espírito no crente não é facilmente legível pelos homens, pelo contrário, assim como o próprio Cristo suscita divisões entre os homens que encontra levando-os a tomar uma posição, também a acção do Espírito no crente suscita uma divisão entre quem se deixa interpelar por ele e quem o ignora ou o menospreza (1.ª leitura: “Estavam todos estupefactos e perplexos, perguntando uns aos outros: ‘Que significa isto?’ Outros, por sua vez, diziam, troçando: ‘Estão cheios de vinho doce’”: Act 2, 12-13).
Ao mesmo tempo que deixa os seus e se despede deles com o discurso de adeus, em que revela aos discípulos as contrariedades e as tribulações que deverão enfrentar no mundo, Jesus deixa-lhes também o Paráclito (cf. Jo 14,16.26), ou, na linguagem jurídica da época, o advogado de defesa, a ajuda poderosa que os sustentará nas lutas que deverão enfrentar. O dom do Paráclito habilita o cristão para a luta espiritual graças à qual, unicamente, é preservada a fé que, no mundo, está sempre ameaçada.
Jesus promete a sua oração pelos discípulos com a intenção de obter o dom do Espírito: a intercessão de Jesus junta-se assim à oração de súplica essencial e irrenunciável do crente: a oração que pede o Espírito. “O Pai celeste dará o Espírito Santo àqueles que lho pedem” (Lc 11,13). O dom do Espírito para os cristãos é portanto pedido por Cristo na sua qualidade de intercessor e é a coisa boa por excelência e verdadeiramente imprescindível que o cristão é chamado a pedir na sua oração. E é a oração que é atendida porque o pedido é feito em nome de Cristo. O Espírito, de facto, é “o outro Paráclito” (Jo 14,16), outro em relação ao próprio Cristo (cf. 1Jo 2,1). Se Cristo, enquanto Paráclito, esteve próximo dos seus e com eles no tempo da sua existência terrena, agora o Espírito Paráclito estará para sempre com os discípulos (cf. Jo 14,16) e estará neles (cf. Jo 14,17).
A tarefa do Espírito, também chamado “Espírito de verdade” (e, para João, verdade é a revelação cristológica), é conduzir o crente uma assimilação em profundidade, uma interiorização da Palavra e do ensinamento de Jesus, portanto da sua própria vida e presença. As funções do Espírito são: ensinar e recordar (cf. Jo 14,26), portanto funções que orientam para a interioridade, a edificação de uma vida interior. Este texto de João sublinha a dimensão interior da acção do Espírito, essencial para uma vida cristã que queira ser sacramento da presença do Senhor. Sem vida interior animada pelo Espírito, o seguimento de Cristo mantém-se num plano de pura exterioridade, a fé arrisca-se a reduzir-se a gnose, a esperança a ideologia, o amor a activismo.
Parece-me fundamental recordar que, sobretudo para a transmissão da fé, é basilar ajudar a formar-se nos jovens um espaço interior, uma capacidade dialogal, reflexiva, uma capacidade de unir interior e exterior, emoções sentidas em si e acontecimentos vividos exteriormente, uma capacidade crítica e de autoanálise. Portanto, ajudar ao desenvolvimento de uma dimensão humana, humaníssima, de interioridade. Não será decerto ainda a vida espiritual cristã, mas pode constituir o seu indispensável fundamento humano. Os movimentos de guardar dentro de si, de escutar o próprio corpo, de enunciar as próprias as emoções, de valorizar as próprias acções, de pensar e reflectir, de interrogar-se e pôr-se em causa, de estar em solidão e de habitar o silêncio, são movimentos humanos tudo menos estranhos à vida espiritual cristã. Esta nasce da escuta da Palavra de Deus e do acolhimento do dom do Espírito. E o homem espiritual que nasce da Palavra depositada no seu coração e fecundada pelo Espírito é o homem capaz de amor, o homem que ama o Senhor e também os irmãos. É o homem que garante a autenticidade do espiritual cristão.

 

Selecção extraída de Reflexões sobre as Leituras - Ano C de Luciano Manicardi, monge de Bose

Tradução do original por Rita Veiga

Imagem (Lucas): Touro - Arcabas