Tempo Comum

X Domingo

lucas touro arcabas

1Rs 17,17-24;

Sl 29,2.-4.5-6.11-12a.13b;

Gl 1,11-19;

Lc 7,11-17

A ressurreição do filho da viúva de Sarepta por obra de Elias atesta, aos olhos da mulher, a sua qualidade de homem de Deus, ministro autêntico da sua palavra (1.ª leitura); a ressurreição do filho da viúva de Naim realizada por Jesus revela-o, aos olhos de “todos” (Lc 7,16), como grande profeta, aquele no qual o próprio Deus visita o seu povo (evangelho).
Em ambas as narrações de ressurreição está presente uma estrutura sacramental: palavras e gestos de Elias convergem no dar vida ao jovem; na passagem e na actuação de Jesus está presente a visita e acção do próprio Deus.
Quem é o profeta? A 1.ª leitura mostra duas visões contrastantes da missão profética. Nas palavras angustiadas e desesperadas da viúva, o profeta aparece como aquele que revela os pecados do homem, que põe a nu a fraqueza humana fazendo-se ministro de um Deus juiz que castiga (cf. 1Rs 17,18). Nesta primeira visão, o profeta culpabiliza, humilha, faz morrer. Na acção de Elias, ao contrário, o profeta aparece como aquele que intercede e dá vida, liberta do mal e faz o bem. O profeta – e aquele “grande profeta” (Lc 7,16) que é Jesus – narra a salvação de Deus aos homens fazendo o bem e dando vida.
Jesus manifesta-se como o Senhor da vida, criando relação onde há imcompatibilidade, oposição, alheamento: no lugar liminar representado pela porta da cidade que estabelece a comunicação entre interior e exterior, cidade e campo, lugar dos vivos e lugar dos mortos, Jesus faz acontecer o encontro entre o cortejo fúnebre que sai da cidade e o cortejo que o acompanha para entrar na cidade. Aqueles caminhos opostos, destinados apenas a cruzar-se, são levados por Jesus a encontrar-se. O acontecimento extraordinário da ressurreição do jovem nasce de um olhar de compaixão que se torna gesto, acção, palavra, portanto história, graças a uma decisão íntima de Jesus. O acontecimento grandioso nasce no segredo e no oculto do coração. Estamos perante o fundamento espiritual do agir. Na casualidade do cruzarem-se, Jesus decide livre e voluntariamente o encontro, o comprometimento, a comunicação. Já ali se dá a vitória da vida sobre a morte.
Para dar vida, Jesus deve criar relação, e para criar relação deve ele próprio entrar em relação. Emoções e vontade, sentidos e inteligência, sentimento e decisão, cooperam em Jesus para fazer tornar-se a compaixão factor de história, de encontro, de dom de vida. Os seus sentidos (ver, tocar) convergem em criar sentido no absurdo da morte do único filho da viúva.
O olhar de Jesus vê a dor da mulher, o insuportável peso de morte que se abateu sobre ela: mulher de um marido morto, mãe de um filho morto. E ao olhar segue-se a palavra dirigida corajosamente à mulher transtornada de dor: “Não chores” (v. 13). Também o seu tocar o féretro é acompanhado de uma palavra “louca” porque dirigida ao morto: “Rapaz, ordeno-te, levanta-te” (v. 14). A palavra de Jesus sabe tocar e chegar até ao trágico da existência humana. E é uma palavra audaz e de autoridade. Trata-se de uma palavra “sentida”, que nasce das vísceras de Jesus, que o implica totalmente e que não receia parecer louca, insensata, irracional ao dirigir-se a um morto. Na realidade, é uma palavra total, uma palavra corpórea, uma palavra que diz e que dá, que age e actua: é uma palavra humana que revela Deus, uma palavra que narra Deus “amante da vida” (Sb 11,26). O texto põe-nos em causa a nós, que frequentemente, perante ao luto e a dor humana, ficamos balbuciantes, não temos palavras adequadas e acabamos nas banalidades ou na prédica ou na repetição de palavras de mero senso comum, não acertando no encontro com quem sofre, por receio de sermos contagiados pelo seu sofrimento.
O texto apresenta também uma dimensão eclesiológica. A acção de Jesus não consiste apenas em dar vida ao morto, mas também em reunir os dois cortejos separados num único acto de reconhecimento e de louvor: “Todos glorificavam a Deus”. Esmiuçando, entrevê-se o acontecimento da ressurreição de Jesus (culminar da acção de salvação de Deus para a humanidade), da qual nasce a Igreja, e vislumbra-se também a vida eclesial reunida em torno da memória sacramental do acontecimento da ressurreição.

 

Selecção extraída de Reflexões sobre as Leituras - Ano C de Luciano Manicardi, monge de Bose

Tradução do original por Rita Veiga

Imagem (Lucas): Touro - Arcabas